quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

UM CÃO A MAIS NA NOSSA RUA

Foto: Aleksandar Martić












UM CÃO A MAIS NA NOSSA RUA

já não tenho o teu amor nem o meu. despojaram-me de tudo.
estou diante o público, nu, digo, diante da humilhação.
o amor é a nossa roupa:
quem me dirá «tens as mãos frias», «os lábios secos»,
«os olhos fundos»?
quem me despertará do terror do calendário, quando por ele espreito
como se espreita de uma janela alta sobre a rua?
quem me dará da sua saliva para me curar da minha saliva
triste e estéril?
já não tenho muitas palavras.
desbaratei-as em todas as tabernas por onde me conspurquei.
estou nu, diante o osso, sombra com sombra, só, canino.
e nem perdão tenho que pedir – nem isso, nem isso


08.12.2016

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

DEZEMBRO ENTRA PELA CANCELA MAL SEGURA

Fotografia: Gary McParland












DEZEMBRO ENTRA PELA CANCELA MAL SEGURA

dezembro entra pela cancela mal segura
e é de manhã a mão gélida que tocou a horta.
os pássaros saltitam no vidro, abrem o dia à luz, repercutem o silêncio.
dezembro caminha pela várzea crua até ao rio,
encolhido como o corpo dos choupos, exposto ao som da poda,
frágil como as pedras que rolam de súbito, famintas,
agudas, desengastadas.
dezembro paira nos passos enlameados através do nevoeiro,
sujo e limpo, como nas frases soltas
e ilegíveis de um enigma.
dezembro não é um tempo, é um corpo distante.
e nunca sei se é a morte ou se é a vida o que eu vejo e ouço

06.12.2016

sábado, 3 de dezembro de 2016

MOSCOVO, ODESSA, BERLIM, COMPENHAGA, AMESTERDÃO, MADRID, AVULSOS, TU

Fotografia: Jakub Dolinský











MOSCOVO, ODESSA, BERLIM, COMPENHAGA, AMESTERDÃO, MADRID, AVULSOS, TU


um poema pequeno.
todos os grandes pisam em volta

cuidado com os tacões!


nunca sei o que vou dizer.
sou pessimista desde que nasci.
as coisas aparecem escritas


quando visitei a casa do escritor
senti rigorosamente nada

em que página foi isso?


durmo agora assim.
o candeeiro aceso, a chuva a arder,
as folhas com os olhos bem abertos no escuro


a lâmpada engolindo a treva
com o vagar olímpico de um buraco negro

queridos pés, esperai pela vossa vez!


a hora das gralhas, selvagem.
nos bastidores os ervilhais, o moinho, o rio amaldiçoado

como se escreve EU em numeração romana?


ao meio-dia a magnífica longa solidão das estradas vazias.
o carro é um carrossel
a brincar ao outono com o sol


não tenho muitos amigos, lá isso…

nem dois.
um



a tarde poisa na chávena.
o café é belo: bebe-o devagar.
a paisagem é boa: serve-te à vontade!


menear as ancas desse modo
faz-me pensar:

o que é um poema?


uma parte de mim dói-me

os teus seios,
auréolas, mamilos, camisola de angorá


quem me acaricia não tem rosto.
flutua a contraluz, mãos frias, perfume de bergamota

quero morrer assim


esta estrada conduz-me até à noite

a tua casa, que horas são,
porque mo perguntas?


no crivo sobraram os peixes menos graúdos.
os sobejos, o meu prato preferido:

nunca passei fome


veludo:

uma lâmpada acesa, um fósforo, um cigarro para dois.
nem sei ainda o teu nome


resumo da vida até agora:

varicela, parotidite, bexigas, um cancro benigno,
reticências

Ilya Gorlukovich (Bielorrúsia)


segunda-feira, 28 de novembro de 2016

EVENING

Fotografia: Sol Marrades











EVENING

depois das aulas sais para o ar frio desta parte da cidade.
o portão escancarado de ferro, os caminhos de saibro branco, as árvores centenárias, os bancos desmantelados de madeira, a tua sombra.
alguém muito longe povoa o ruído das pombas, estagnado em ti como o remanso do lago.
já viste como os nós do carvalho-roble se parecem aos teus fantasmas?
o último dos casais partiu pelo fundo à direita.
é quase noite.
como os gatos precisas de lavar-te


28.11.2016

domingo, 27 de novembro de 2016

AS GRALHAS

Fotografia: Alex Saberi











AS GRALHAS

as gralhas ouvem-se melhor no frio, nos corredores vazios ao longo da várzea, de manhã.
de vez em quando recordas-te de mim e enches o espaço com a tua voz.
depois permaneces em silêncio muito tempo, submersa no nada como se não existisses.
o inverno começa aqui, as árvores ocultam a luz, tragam o caminho.
viajo, por isso, pelo meio da neblina, sem tempo, nem sei se à espera de alguma coisa.
cada som é multiplicativo e doloroso, as gralhas arranham a pele, fazem-na tremer.
onde estás tu? ninguém aposta um cêntimo no futuro.
prudentes, os bolbos agarram o conforto da terra como quem dorme confortavelmente.
quem pode censurá-los? pergunto: quem?


27.11.2016

domingo, 20 de novembro de 2016

VIAGEM

Foto: Norbert Maier










A primeira impressão que se tem no meio da floresta, ao atravessar-se a cortina de luz entre as árvores, é o chapinhar das botas na terra húmida. O desenho da sola fica estampado nos carreiros ao longo de caminhos macios de musgo e folhas dourado-avermelhadas para logo se perder nos pedregulhos aguçados por onde é preciso continuar. Sobe-se, trepa-se a custo, nos meticulosos lances de lobo solitário. As fragas são uma especialidade demorada, exigente, tal como suportar o silêncio. Ao mesmo tempo que os pulmões sentem regenerar-se no ar álgido das montanhas, o silêncio pressiona os ouvidos, fá-lo como uma grande bolsa de paz a que se não está acostumado. Dói por isso escutar, sentir a ausência de ruído, senti-la rodear a cabeça e os ombros, cortar a pele, entranhar-se nas unhas e nos lábios, senti-la cair dentro de nós como água num odre vazio.


Crónica completa aqui.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

UMA ESPÉCIE DE FÁBULA

Foto: Mathijs van den Bosch 
















UMA ESPÉCIE DE FÁBULA

as galinhas poedeiras encontram-se todos os dias à mesma hora no mesmo lugar de Manhattan.
os ovos aí vêm, assoberbados, cheios de donaire e excelentes maneiras.
cada galinha posa um pouco para o seu ovo (tão crescido já, ainda parece que, ontem mesmo e) como se nada nesta cidade fosse merecedor de tamanha aprovação.
as galinhas de Manhattan são as melhores do mundo (praxis dixit),
galinhas anglo-saxónicas, criadas em ninhos de ouro, saídas das melhores cloacas, mulheres dos melhores colhões (dos que mais alto cantam).
vede que maravilhoso cacarejo aí vai na 5ª avenida, que formidável adn de pintos loiros até debaixo das asas.
todos os dias isto a esta hora!
as pedreses do Bronx com as suas ninhadas sujas,
estas penas sedosas de tão limpas!
e os que aqui vedes agora, patas curtas, cheias de mesura, nem o Empire State Building há de chegar tão alto no concurso dos poleiros.
vós que varreis o esterco das galinhas com vassouras de vime, dai tempo ao tempo.
lá bem de baixo, da língua do Hudson, ouvi-los-eis,
ouvi-los-eis cantar


Ruth Salomon (EUA)

sábado, 5 de novembro de 2016

UM ANTIGO AMOR

Foto: Marina Nieuwenhuijs
















UM ANTIGO AMOR

eu e a noite damos as mãos aqui
sob a luz severa do lucivelo.
os pensamentos são a minha costura,
tão embrionários agora como aos quinze

quando o poço cai na pedra lembra-se:
assim uma vez há muito tempo caí no corpo de alguém.
por causa de uma promessa,
um milhão de coroas da grande dívida do amor

além, o ferryboat regressa de outro país,
carregado de camiões, fatos-macaco, tristeza.
a rapariga toca a boca húmida da ferida,
menstruo, gerbera, ombro

a noite ata-nos a quase tudo,
cose-nos com linha amarga a cada lembrança.
ao chegar a terra o mar apita,
carregado de mim e de nós, de entulho indecifrável

Inga Lunqvist (Suécia)


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

NIDOSA

Foto: Erik Bårseth














NIDOSA

o poema é o ponto de partida

os meus ossos reclamam-no.
neste dia de mortos, eu quero a vida,
quero-a arrogante e livre, limpa e áurea

o poema é a vida

neste dia de caídos, de lamentações, de sórdidas imprecações à porta dos mercados,
eu quero o sol irrepreensível,
quero a manhã,
quero a solidão do sicómoro e do cipreste entre as penhas,
quero o riacho de luz a baloiçar à minha janela

não me tragais outro problema: o poema é uma solução

coisas mortas dos outros, o poema é a mão que corre sobre o pó acamado e denso,
o poema não é o doce mastigar do dióspiro, mas a côdea de pão,
o poema uiva (disse Ginsberg), o poema canta, o poema murmura, o poema é silêncio

porque o não escutais?

o poema atravessa as paredes de terracota e as grades de ferro,
o poema corre na pele e para lá das têmporas e, palpitante, salpica no mar cerebral

como o não sabeis?

o poema não tem reboco,
o poema sustenta cruamente o torso,
é reto e vertical e limpo

neste dias de flores derribadas e ferrolhos abertos, neste dia de lágrimas e lágrimas e lágrimas,
o poema impera tão intacto como dantes, tão puro como a água do oásis,
tão visceral como as palavras de uma mãe antes de morrer

o poema é os meus ossos

sobre a mesa (como sobre o peito), sobre o pergaminho (como sobre o sangue), sobre a sombra (como sobre a coronária),
o poema é sublime

o poema como um pensamento, pesa como um pingo de luz,
amplo como a semente, amplo como o instante, amplo como o amor

o poema é amor

não o suportais?
nada sabeis destas coisas?
fugis?

neste dia de mortos, neste dia de subsolos, de idos e funestos fumos, neste dia de mordaças e candeias às avessas, de salmos e virulentas juras contra o inimigo,
eu digo-vos

o poema é o poema

vibrante e íntegro, musculado e sóbrio, limpo e vivo,
o poema tudo guarda e nada detém,
o poema é limpo

e eu caminho no poema como em mim

destelhado, limpo e enxuto,
limpo para as nebulosas distantes, limpo para as colunas versáteis do sol, para o deus infinito,
o poema vive

e eu caminho atento e varonil, sóbrio da minha voz

não o ouvis?
não o desejais?
não o defendeis?

o poema é os ossos, a casa, a chegada,
repito, a chegada

Abun-Sará (Líbano)


sábado, 29 de outubro de 2016

RESÍDUOS, FRASCO DE PERFUME

Foto: Yura Kurnosov
















RESÍDUOS, FRASCO DE PERFUME

por fim restaram algum objetos, os sulcos,
a singularidade do silêncio.
de tão gastas as últimas palavras
precisam de ser amparadas.
e eu pergunto se tudo aconteceu de facto

o tempo? como não sorrir à formiga?
ou tocar a sombra com a polpa dos dedos?
digo-te, nada é que não seja, nada.
a felicidade hoje é isto:
abri-lo, outra vez, o teu frasco de perfume


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

INVERNO, HOSPITAL

Foto: Nancy Borowick












INVERNO, HOSPITAL


If I had touched you then
One of us might have survived.

Ian Hamilton, Fifty Poems



o teu olhar estende-se até à parede branca
onde o detêm duas manchas quase em cunha contra o teto.
nesta época do ano já as moscas nos deixaram.
o pensamento não tremelica debaixo das asas transparentes.
«vou morrer e tu sabes isso» murmuras durante a tarde.
os ossos, reunidos no mesmo lugar, dão de si:
o cálcio aguenta tudo, a verdade, os filhos, o cancro.
dentro do quarto escuta-se o silvar em linha reta da tua respiração.
o zumbido das moscas far-nos-ia bem, suponho.
mas elas, como tantas outras coisas, não pertencem ao inverno.
vais morrer e eu sei disso.
esfacelado, como nas farpas de um arame,
o meu olhar embate com força na parede branca e regressa
embate e embate e regressa