segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

DEDOS

Foto: amir bajrich












DEDOS

sincréticos dedos sobre o tampo liso da mesa.
nada seguram, ousam, pesam, escrevem.
são ébrios e castos, sóbrios e lúbricos.
ao redor deles as sombras demoram e alumiam.
dizem tanto sem terem dito, belos de velhos e densos.
se lhes tocamos deslizam em silêncio contra nós,
sulcos e sulcos e segredos e unhas surdas.
acariciam-nos no fundo da infância,
onde não supúnhamos poderem encontrar-nos.
tão serenos e sábios e cansadamente sublimes.
são a memória deles próprios e de nós,
sincréticos, ruidosos, em silêncio sobre a mesa.
se lhes tocamos são soberbas ervas erguendo-se,
cobrindo-nos, guardando-nos.
e nunca morrem, nem quando um dia morrem.
nunca desamparam, ferem ou fingem esquecer-nos.
são a mais pura pele que arde sobre a nossa pele,
o mais longínquo nevoeiro, a noite mais bela.
sulcos e sulcos, segredos, unhas surdas.
e nunca morrem, nunca morrem, nunca morrem

16.01.2017

domingo, 15 de janeiro de 2017

TODAS AS MANHÃS

Fotografia: Bernard Plossu













TODAS AS MANHÃS


E a casa conhece bem a constelação de pregos
que mantém as suas paredes juntas.

Tomas Tranströmer


todas as manhãs são um poema inteiramente novo.
limpar a cinza da lareira, varrer o chão, aspirar os quartos,
deixar que a brisa fria de janeiro conheça cada recanto da casa,
sentir nas mãos outra vez o peso de cada retrato,
dizer em silêncio a oração mais antiga, a mais profunda.
é assim que Ulisses regressa a Ítaca todas as manhãs,
com ou sem Penélope, desde o começo dos tempos

15.01.2017

sábado, 14 de janeiro de 2017

MANHÃ DE SÁBADO

Foto: Remus Tiplea











MANHÃ DE SÁBADO


É mais forte o nosso entendimento
Ou o farrapo
Que enlouqueceu e vai com o vento?

Tassos Denegris


ao acordar, olhos e mãos não privilegiadas abrem
uma infinidade de portas e janelas:
o ontem, como um ferrolho corrido, já não arde,
‒ o ontem, com os seus males tão sérios, suas memórias em brasa,
com o seu alarme ‒.
aqui fora, entre os ervilhais, o pulo dos pintassilgos compete
ao longo das ramagens com a caravana do orvalho.
há um perfume inteiramente novo, um frio inteiramente doce e nosso!
‒ então, não é que a vida vale ainda a pena? ‒
ao acordar, olhos e mãos não privilegiados abrem
um capítulo em branco no fólio vetusto do universo.
o ontem, como um sonho desfeito, já não pode tocar, constranger,
ferir-nos!
‒ pesados rastrilhos cortam-lhe a passagem ‒.
ao acordar, olhos e mãos não privilegiadas abrem
a vulnerável corola do horizonte, azul-dourado, alçapão, pupila de deus:
o sol, e não as sombras, escreve mais alto

14.01.2017

domingo, 8 de janeiro de 2017

HOJE

Foto: Jevel












HOJE


Apanha, apanha os meus estilhaços!

Erdal Alova


espreito cada um dos meus ossos.
hoje é ainda um bom dia para me não dar por vencido:
de pé estão todas as certezas e incertezas.
o velho boi resfolega tranquilo entre as sístoles e as diástoles,
a cabeça não encheu completamente (nem é demasiado vazia),
os olhos não alcançam já o céu nem o grão de poeira
(cada noite e cada manhã olho-me ao espelho
e repito sem azedume «outrora vivi aqui»),
a boca é maçadora, mas sabe beijar e gosta de comer.
se saltito entre a infância e o futuro,
sinto-me seguro nalguma rede de trapezista
e apesar do que perdi não perdi a vontade de devolver-me
ao bem, ao sol ou às palavras mais amáveis.
sou um homem antigo e um homem moderno também,
preso em mim mesmo e hermético como uma pedra.
sorrio com facilidade (embora não em público)
e choro muitas vezes, sem vergonha ou timidez.
em revista passo os meus versos, as minhas veias,
os meus cabelos, os meus brinquedos:
o tempo não me destruiu ainda!
hoje é ainda um bom dia para continuar
e, mesmo desconhecendo para onde, não desisti de o saber

08.01.2017

domingo, 1 de janeiro de 2017

O LUGAR DA POESIA

Fotografia: Bob Orsillo













O LUGAR DA POESIA

pode escrever-se um poema numa praia da América Central,
os coqueiros retorcidos pelo calor,
cantando as benesses da civilização e o ócio.
ou pode escrever-se sobre o dia comum, num cubículo gelado numa cidade da Sibéria,
a fealdade dos bairros simétricos, trinta graus negativos no pedúnculo das ervas,
baforando maravilhosamente entre o copo de café e cada palavra, densa e angulosa
como um cubo de água.
a poesia tem as suas paredes, o seu tempo,
o mais das vezes à prova de estúpidos e de incapazes do amor


01.01.2017


sábado, 31 de dezembro de 2016

ANO NOVO

Fotografia: BJ Yang












ANO NOVO

noite de ano novo, roupa elegante, penteados sensacionais, luxo.
ano novo, o mesmo corpo, a velha alma lamacenta.
ao largo o fogo de artifício, a esgrima dos copos altos, festa.
como um dos eremitas medievais recolhes ao quarto sem uma palavra.
é cedo, irremediavelmente tarde já.
regressas talvez à infância, aos lugares ermos e silenciosos.
uma fonte deita sem parar,
no chão, a esmo, o barro quase verde das bilhas quebradas.
sobre os cacos água corrente, água boa, água limpa,
e tu respiras, tu renasces – muito longe tu caminhas para mais longe ainda

31.12.2016

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

DEZEMBRO, MANHÃ, MUITO CEDO

Foto: Yvette Depaepe














DEZEMBRO, MANHÃ, MUITO CEDO

uma reta pelo meio dos campos enevoados,
labaredas e homens solitários, pilhas de lenha seca
aqui e além o rio, o carro, o fio ininterrupto do tempo.
algo de metáfora nada no interior dos meus olhos,
como se escrever pudesse sobre o vidro embaciado.
hoje e agora, aqui e em mim, futuro, saudade

21.12.2016

domingo, 18 de dezembro de 2016

A QUE CHEIRA A TERRA?











A QUE CHEIRA A TERRA?

a que cheira a terra?
pergunta-mo uma parte de mim enquanto uns homens à maneira antiga
abrem à pazada os gloriosos alicerces de um poema.
sim, a que cheira a terra?
a terra funda, a terra fibrosa, a terra que desce (pazada a pazada)
ao âmago limpo, intacto, imutável do tempo?
a terra que se esconde, a terra dos mortos, a terra viva,
a que cheira?
alcalina, saibrosa, húmida, enxuta, um pouco cítrica talvez também,
férrea (sim, há algo de ferro no cheiro da terra),
resinosa, próxima por vezes do perfume de um pinhal,
ou adocicada, como nas volutas das areias,
a que cheira a terra?
os homens nem se importam, escavam e escavam, aprofundam,
vão na direção do osso, com sinceridade não sabem responder:
os caboucos de um poema é uma coisa muito séria, senhor!
escavam e escavam, rasgam a metáfora, o coração sujo da entropia:
que lhes importa a eles, sim que importa, o cheiro da terra?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

UM CÃO A MAIS NA NOSSA RUA

Foto: Aleksandar Martić












UM CÃO A MAIS NA NOSSA RUA

já não tenho o teu amor nem o meu. despojaram-me de tudo.
estou diante o público, nu, digo, diante da humilhação.
o amor é a nossa roupa:
quem me dirá «tens as mãos frias», «os lábios secos»,
«os olhos fundos»?
quem me despertará do terror do calendário, quando por ele espreito
como se espreita de uma janela alta sobre a rua?
quem me dará da sua saliva para me curar da minha saliva
triste e estéril?
já não tenho muitas palavras.
desbaratei-as em todas as tabernas por onde me conspurquei.
estou nu, diante o osso, sombra com sombra, só, canino.
e nem perdão tenho que pedir – nem isso, nem isso


08.12.2016

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

DEZEMBRO ENTRA PELA CANCELA MAL SEGURA

Fotografia: Gary McParland












DEZEMBRO ENTRA PELA CANCELA MAL SEGURA

dezembro entra pela cancela mal segura
e é de manhã a mão gélida que tocou a horta.
os pássaros saltitam no vidro, abrem o dia à luz, repercutem o silêncio.
dezembro caminha pela várzea crua até ao rio,
encolhido como o corpo dos choupos, exposto ao som da poda,
frágil como as pedras que rolam de súbito, famintas,
agudas, desengastadas.
dezembro paira nos passos enlameados através do nevoeiro,
sujo e limpo, como nas frases soltas
e ilegíveis de um enigma.
dezembro não é um tempo, é um corpo distante.
e nunca sei se é a morte ou se é a vida o que eu vejo e ouço

06.12.2016

sábado, 3 de dezembro de 2016

MOSCOVO, ODESSA, BERLIM, COMPENHAGA, AMESTERDÃO, MADRID, AVULSOS, TU

Fotografia: Jakub Dolinský











MOSCOVO, ODESSA, BERLIM, COMPENHAGA, AMESTERDÃO, MADRID, AVULSOS, TU


um poema pequeno.
todos os grandes pisam em volta

cuidado com os tacões!


nunca sei o que vou dizer.
sou pessimista desde que nasci.
as coisas aparecem escritas


quando visitei a casa do escritor
senti rigorosamente nada

em que página foi isso?


durmo agora assim.
o candeeiro aceso, a chuva a arder,
as folhas com os olhos bem abertos no escuro


a lâmpada engolindo a treva
com o vagar olímpico de um buraco negro

queridos pés, esperai pela vossa vez!


a hora das gralhas, selvagem.
nos bastidores os ervilhais, o moinho, o rio amaldiçoado

como se escreve EU em numeração romana?


ao meio-dia a magnífica longa solidão das estradas vazias.
o carro é um carrossel
a brincar ao outono com o sol


não tenho muitos amigos, lá isso…

nem dois.
um



a tarde poisa na chávena.
o café é belo: bebe-o devagar.
a paisagem é boa: serve-te à vontade!


menear as ancas desse modo
faz-me pensar:

o que é um poema?


uma parte de mim dói-me

os teus seios,
auréolas, mamilos, camisola de angorá


quem me acaricia não tem rosto.
flutua a contraluz, mãos frias, perfume de bergamota

quero morrer assim


esta estrada conduz-me até à noite

a tua casa, que horas são,
porque mo perguntas?


no crivo sobraram os peixes menos graúdos.
os sobejos, o meu prato preferido:

nunca passei fome


veludo:

uma lâmpada acesa, um fósforo, um cigarro para dois.
nem sei ainda o teu nome


resumo da vida até agora:

varicela, parotidite, bexigas, um cancro benigno,
reticências

Ilya Gorlukovich (Bielorrúsia)