quarta-feira, 14 de setembro de 2016

NOZES




levar a mão ao saco das nozes e recolhê-la à noite, cheia de esperança.
setembro há de trazer-me sempre aqui a esta velha casa de reboco e traves carunchosas.
atrás da janela de guilhotina ponho-me a espreitar o céu e a pensar no futuro,
os bolsos cheios, tateados com prudência e cálculo, e satisfação.
quando for grande o mundo estará por minha conta.
depois é estudar as nozes e rebentá-las uma a uma junto às missagras da porta ou com os socos do avô.
não fazia isto melhor se fosse um rato ou um esquilo.
em 95 ainda as roubava, em 2001 também, em 2016 é agora.
abro-as durante a noite à puridade, estendo-as na mesa da cozinha, estrangulo-as com o alicate até ficar cansado.
uma a uma, elas saem-me carunchosas e chochas como um setembro velho.
ponho-me a cismar: porra, é este o futuro?
o meu avô dá risadas, só ele sabe rir daquela maneira.
todos os ladrõezecos acabam apanhados:, como vês o tempo deu finalmente conta de ti.
sentir a cabeça entalada no garrote da armadilha, mexer o lombo, debater-me sem esperança.
não, não fazia isto melhor se fosse um rato ou um esquilo



Fotografia: Eleonora Grigorjeva