sábado, 20 de agosto de 2016

FIM DO VERÃO

Foto: Coltrane Koh











FIM DO VERÃO

o frio chega por debaixo das portas ainda em pleno verão.
os teus dedos cheiram a café quando acendes uma vela.
esta caixa contém aproximadamente 45 fósforos.
começas então a queima das frases eufóricas

nem tu conheces a porta que conduz a ti próprio.
o outono é um composto de tentativas.
em silêncio a casa dança numa chama incorruptível.
uma vez na vida todos passamos por isso

20.08.2016

sábado, 9 de julho de 2016

ONDE ESTÁ A MINHA MENINA?











ONDE ESTÁ A MINHA MENINA?

uma manhã brumosa, pegadas fundas na areia molhada

quando tu eras pequena (quer dizer, tão pequena como se é pequeno para um pai ou uma mãe), eu segurava-te os pezinhos e as perninhas e fazia-os rodar com força como se andasses de bicicleta. e tu rias! rias-te às gargalhadas! como se louquinha andasses de bicicleta! como se fosses ser sempre assim, pequena e ternurenta, enconchada de amor, o biberão quase escondido nas engelhas dos lençóis!

uma manhã brumosa, a pele suja e fria do salitre

agora sais com as malas para não sei que país, em não sei que continente, a não sei quantos milhares de milhas de avião. as tuas pernas, bem ginasticadas, têm pressa. as malas (nenhuma dispensável) irritam-te, atrasam-te, pesam-te. o mundo (para lá, para lá somente) espera por ti

uma manhã brumosa, pingos ferrugentos de chuva

a água entra e sai e escorre pelas paredes da gruta. oiço o ressumar do sal, as bolhas que nascem no movimento das ondas, o chiar das cavidades de calcário. por dentro sou também assim. um vaivém incessante de crustáceos, pegadas efémeras, conchas partidas. o som some-se no silêncio como em pedra pomes. digo em voz alta COMO O TEMPO PASSA! digo-o uma e outra e outra vez para não me esquecer. o mundo (para lá somente) espera-te

uma manhã brumosa

como o tempo passa! aqui e além as sombras alumiam-me 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

UM CONDENADO

Foto: Bernd Drawe Photography
















UM CONDENADO

se pudesse olhar-me de um ponto alto, alcantilado como o poiso do anjo,
giratório como o lugar da ventoinha,
que imagem!
a insónia, a própria terra devastada, labaredas rasas, fumo e cinza, pó!
lençóis torcidos, pensamentos, meias frases, ecos, o sufoco.
bons trepadores, pela calada, os fantasmas entram pela janela,
dizem estamos aqui, bebem da nossa água, pisam o braço menos forte.
e eu que queria ser leve e ser levado na viração!
e eu que queria beber com as estrelas pelo mesmo cantil!
e eu que queria extinguir-me com o silêncio e com o espaço!
que imagem!
a insónia arde até o corpo cheirar-nos a vinagre!
bons trepadores, pela calada, os fantasmas entram pela janela,
dizem cada minuto é uma expiação e uma promessa.
com o ricto de um condenado, exausto, o nosso rosto é olhado.
que imagem!
os pássaros voltam, a hortelã é agora veemente, no vazio a noite lava-se.
sobre a cama um manto de luz fria.
mádida, cada coisa traz de manhã uma dose exata de perdão

terça-feira, 21 de junho de 2016

DIA DE ANIVERSÁRIO

Foto: Magali Kermaïdic












DIA DE ANIVERSÁRIO

e, então, subitamente, o tempo muda.
por cima da casa à noite os relâmpagos agadanham, rodeiam-me velhas angústias.
tudo se repete, estou cansado.
mais do que nunca, o silêncio é uma bênção.
não quero reler a lombada dos meus livros, não quero responder ao telefone,
não quero escutar os cães no outro lado do subúrbio.
o silêncio é uma grande preguiça de náufrago dado à costa.
rolei de onda em onda até chegar a mim próprio.
agora às escuras, sem eletricidade, sinto as paredes arfar.
este é o cárcere do eu: ser, existir, respirar.
o ator vai por fim despir todas as máscaras: como será o verdadeiro rosto?
então, subitamente, o rufar da chuva.
água marcial desde os confins do firmamento.
os pulmões ressequidos sentem o peso do ar – e o ar é puro e lavado como uma metáfora nova.
não faz mal que vaciles diz um antiquíssimo avô com o seu olho de vidro.
importa é que sejas tu!
ser eu, o peso da responsabilidade, ser eu!
a eletricidade volta, os postes alumiam em força até aos becos protetores.
o rosto, o rosto verdadeiro!
uma janela aberta para o infinito ‒ deixem-no ser, existir, respirar!
uma impressão novíssima de paz e alcatrão molhado

quinta-feira, 16 de junho de 2016

UM PAÍS DISTANTE

Foto: Oana Ingrid















UM PAÍS DISTANTE

não conheço essa cantiga,
não posso trauteá-la contigo enquanto os olhos se enchem de água.
um país longínquo é sempre o país solitário de alguém:
a alma é íntegra e fria como uma pedra de granizo.
as palavras imaginárias falam de uma montanha e de uma aldeia e de uma casa
onde brilha ainda uma janela até ser manhã.
luz quieta quanto as estrelas em dezembro!
essa mágoa entre o ouro e o nada, esse concreto fulgor do dia!
embocadura do beijo, rosa aberta!
é de tristeza que fala a tua canção, de uma vela acesa no escuro.
e eu que pertenço aqui não sei cantá-la contigo

sexta-feira, 10 de junho de 2016

NÃO

Foto: Brendan Lane












NÃO

as tuas coisas, o teu silêncio,
o redil bem guardado das memórias juntas,
o vidro, o parapeito vazio,
a chávena de barro no barro das mãos,
os livros e o caderno,
o que é tudo? o que foi tudo?
parafusos e dobradiças, as cavilhas do NÃO,
cigarros e silêncio, o isqueiro,
as portas bem fechadas, herméticas,
os livros e o caderno, tudo,
a combustão

terça-feira, 7 de junho de 2016

UMA DESCIDA

Foto: Handi Nugraha












UMA DESCIDA

as últimas palavras escutadas ardem como tochas nas cavernas do ser. ir até fundo é uma viagem perigosa: há degraus tão gastos como traiçoeiros, um passo em falso e logo nos esfumamos para todo o sempre. o covil do EU é um lugar proibido. quem por este caminho vem arrisca pouco de cada vez ‒ não sabemos se realmente caminhamos ou se tudo não passa de um sonho. as últimas palavras são as do poeta Dante de há sete séculos, per me si va ne l’etterno dolore. foi ele o único que regressou dessa masmorra. o abismo é agora a pique. um sarilho roda e faz ecoar o som das cordas pela garganta da treva, por onde os mineiros desapareceram. lembro-me da construção do poço, do rebentar da dinamite, do estremecimento da terra. ir até fundo é uma viagem perigosa. ao descermos tocamos as sucessivas camadas de nós mesmos, intervalos de sombra e de luz, hologramas, as galerias por onde o verme da vida nos levou. a infância é um subsolo difícil. a voz do psicanalista hipnotizador faz-nos descer mais e mais, mas nunca descemos o suficiente. o EU é inalcançável. nos círculos infernais gemem e debatem-se os muitos seres que fomos sem nunca termos sido. cada solavanco fere-nos como um despojamento, como se nos despíssemos dos ossos ou da razão. ir até fundo é uma viagem perigosa. as últimas palavras encorajam, mas os degraus são cada vez mais ínvios e incompreensíveis: um passo em falso, um só, um único movimento brusco e tudo se perderá para todo o sempre. lá em cima o agora a que jamais voltaremos. lá em baixo, no espelho da água, o instante primordial do EU nascido. descer até tão fundo, que jornada!

07.06.2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

UMA CLAREIRA

Foto: Marc Adamus












UMA CLAREIRA

como um crente, como um amante que desperta nos lençóis do amor, como aqueles que vê e escuta e sente a paz matinal, caminho no prado e depois no bosque e outra vez no prado depois. as botas atravessam a terra enxuta e as ramagens enlameadas junto ao açude, onde uma alvéola-cinzenta se junta ao coro do estorninho e do melro da água. o perfume das ervas e das árvores entontece-me de tão fresco e cru. como uma pedra esculpida pelos ventos de outubro, a alma sente-se devastada e nua: pensamentos mundanos, violências, remorsos querem esquivar-se para lugares mais arredios. os pulmões abrem os seus foles, intensos como as grandes velas de navios intercontinentais. algo em mim prepara-se para o que virá. como um crente, como um amante, como um homem que acorda por fim, vejo e escuto e sinto cada coisa como um milagre da evolução, vinda ao meu encontro desde as eras mais prístinas. há um silêncio de múltiplas vozes caladas como no rigor de um poema perfeito. na minha solidão a manhã assemelha-se agora a uma clareira. não saberia dizer, nem com um milhão de palavras, como cá chegar

03.06.2016

sábado, 14 de maio de 2016

A SOMBRA E O SILÊNCIO

Foto: Ben Goossens












A SOMBRA E O SILÊNCIO


um cobertor frio

*

e quando às vezes toco
a minha própria pele, as omoplatas,
o arrepio,
penso «eu existo»

*

noite-madrugada,
avivar do vento cambaleando por entre as telhas.
lenha na lareira,
pequenos estalos na fundição.
os ossos também estalam com ilécebra no sofá.
o sono é uma casa alugada.
os ossos seguram-se a nós mesmos, como pontos
delicados de costura.
neles adormeço, seguro como uma âncora
submersa

abril de 2016

quarta-feira, 27 de abril de 2016

MÁRIO CESARINY

Do poeta que escreveu um dia «Faz-se luz pelo processo / de eliminação de sombras» e «Despe-te de verdades / das grandes primeiro que das pequenas / das tuas antes que de quaisquer outras (...)».


quarta-feira, 20 de abril de 2016

À BEIRA DA TARDE

Foto: Judit Ruprech











À BEIRA DA TARDE

um avião aqui e afastando-se no acolchoar das nuvens.
depois o silêncio outra vez.
cartucho vazio de cigarros, aroma indefinível de dedos impregnados em palavras e tabaco.
alguns livros cheiram assim: a enxuto, a agora, a uma carícia lenta, cheia
de angústia

20.04.2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

Foto: Andrei Nicolas















KAVAFIS, ALEXANDRIA, 1933

odres rasgados, mesas de pinho postas ao contrário,
almotolias sangrando sobre o serrim,
ameaças, insultos, o brilho de uma cimitarra.
os facínoras, os sovinas, os caloteiros, os delatores, os maricas,
os putanheiros, os sicofantas
‒  como se atraem uns aos outros!

em silêncio, velho Konstantínos, pensas em Homero, em Ulisses,
pensas em pedaços de papel,
nos aparos derrubados, na tinta, no mata-borrão.
depois, encharcado com o ar húmido de uma manhã de março,
a casa regressas,
onde o cancro te espera para melhor te matar

sempre o caos e a ordem,
o que é e o que podia ter sido, o que era antes e o monstruoso depois,
inseparáveis sempre, como as duas serpentes do caduceu!
muitas vezes em silêncio se escuta muitas vezes o esgaravatar da poesia
‒ e uma vela bastaria (nisso pensas, velho Kavafis)
para iluminar toda a caverna da Górgona

31.03.2016

segunda-feira, 28 de março de 2016

PRETÉRITO IMPERFEITO

Foto: Bill Brandt
















PRETÉRITO IMPERFEITO

nunca pudeste entender.
muitos juntos, os cílios formavam um arco protetor.
para lá das pálpebras fechadas, as imagens corriam como asas inquietas
em todas as direções.
às vezes ressoava uma voz vinda de muito longe,
não diferente da que teriam os deus do Olimpo.
o tempo tremia um pouco então, como treme o dente-de-leão.
depois o sol ardia no rosto e no espaço
e um caminho surgia até a um lugar aonde se chega de mãos vazias.
já aqui estive e nunca aqui cheguei.
quem és tu? quem és tu, afinal?
a tarde era límpida e concreta, como quando se segura um punhado de terra.
quem és? quem és tu, afinal?
termo-nos a nós mesmos como se tem alguém na mira do periscópio!
o silêncio crescia num fulgor de labaredas até às últimas fendas.
e nunca se era ‒ nunca se era ninguém!

… … … … … … …

lavava as mãos,
lavava-as devagar, com sabão.
depois era o silêncio.
depois, de olhos fechados, ervas e pássaros saltitantes.
as imagens sucediam-se, empurradas pelo vento.
rodava sem cessar a antiga azenha
e os taludes ainda não tinham cedido à intempérie.
na minha cabeça, como iluminuras, as imagens acamavam-se
entre os pensamentos.
precisava e tocar-lhes, precisava como se precisa
com um recém-nascido ou um moribundo.
silêncio, piedade, amor.
estava deitado de olhos fechados junto da água.
o sol abria grandes fendas pequenas e enormes pelo meio das árvores.
um velho deus chegava, de galochas e enxada ao ombro.
esperava-o ‒ há muito que o espero aqui.
as imagens eram poderosas, castas, sem imprecisão.
silêncio, piedade, amor.
o deus sorria para mim.
desde então que o sei no fundo da minha alma:
todo o sorriso é uma paisagem

… … … … … … …

caminhava no meu pensamento como numa casa às escuras.
as palavras ressoavam do outro lado da parede.
o poema existia já, sem que pudesse tocar-lhe


28.03.2016

terça-feira, 22 de março de 2016

HOJE QUIS TER-TE AO MEU LADO


Foto: Björn Folkstedt
















HOJE QUIS TER-TE AO MEU LADO

hoje quis ter-te ao meu lado,
sentir nas minhas unhas as tuas mãos finas e frias,
engolir um pouco mais o perfume de outros dias,
rir-me das cócegas na nuca que os teus cabelos fazem,
escutar a voz, o teu silêncio, a tua sombra escastoada na minha sombra

estas coisas são ainda mais puras quando conduzo.
o sol entra-me pelo carro e aquece, adormenta -me:
como se a vida fosse uma estufa!
às vezes tem-se medo por aquilo que existe
como olhar para dentro e para o fundo de um segredo

mas a condução em piloto automático é apenas triste.
hoje quis ter-te a meu lado, sentir, rir-me, escutar de viva voz o tempo:
quando amamos possuímos alguém e ninguém.
os paradoxos são um semáforo aberto e intermitente.
disso nada sabes tu

22.03.2016