Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

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Foto: Sónia Antunes

















Ando nisto há cinco, cinco anos. Nisto. Contração sobre o pronome aplicado às coisas imprecisas. Contração cardíaca. Há cinco anos. Nisto. E o bom do leitor, o paciente do leitor, lendo-me às vezes, vigiando-me às vezes, comentando-me, considerando a desmesura do estro.

Escrevo quando posso. Gosto de escrever. Admito: também quando não posso e quando não devo. Escrevo muito, de mais, de um momento para o outro, ou demoradamente, de alto a baixo, como na tontura de um caracol vagabundo. Mas faço tanta coisa de mais. Bebo café de mais. Leio de mais. Penso de mais. Tanto como fodo de menos e viajo menos tão pouco. E não juntei a fortuna que o ofício promete aos escolhidos pela sorte. Não apareço na Colóquio. Nem dou entrevistas, nem conferências. Nem sou abertura de jornais. Sou um mau escritor. Um e mau. Felizmente sem aparato. Os que me leem, por escrúpulo, por amizade, não mo confessam, mas eu reconheço-o a toda a largura dos meus olhos desalgemados. Sou péssimo. Escrevo muito, coisas soltas, veleidades, fantasias, exotismos, viagens alegóricas, paisagens mentais.

Há já cinco anos. A princípio por capricho. Depois emocionado com a tapeçaria de memórias que inadvertidamente minhas mãos iam depositando entre as tamis do silêncio. Passei enfim por todas as fases. Pela ressaca. Pelo abismo de tudo apagar. O grau de toxicidade em cinco anos disto é incalculável. Nem eu sei dizer a poluição que me entulha a alma em mil exatos textos (bem mais que mil, para ser estritamente rigoroso). A escrita, como as lágrimas, perfura a pele, desce ao osso, vaza o ser. Ela aí está. Ao dispor de quem a queira, como a mórbida pretensão de quem achasse substituir pelas palavras a vida que se ganha nos alvéolos pulmonares, nos músculos, nas mãos enclavinhadas na terra.

Passou tanto tempo em cinco anos que talvez tenha passado uma eternidade em cinco anos.

E ainda agora me arremesso no mesmo lugar. De cabeça. Verticalmente. A prumo. Ainda agora como nesse dia de há cinco anos, quando abri com cinco versos, encimados (premonitoriamente) por Fiama, ainda antes de saber que seria ela a poeta incontestável dos meus dias desiguais. O vício, depois, derrotou-me para lá de todas as razoáveis razões. Precioso vício que me trouxe envenenado à vida, que me trouxe vivo.

De Praga ao promontório de Sagres, do Funchal a Riga, de Madrid e Barcelona, de Paris e Amesterdão, de Zagreb, do meu quarto, do meu caderno ao lugar extraordinário das nuvens, não as oníricas nuvens, mas as nuvens do meu filme preferido de Antonioni, eis a confusão de azimutes que uma mão cheia de anos risca entre os lóbulos cerebrais. E dos amigos idos, dos que se apartaram, dos lugares que perdi, das coisas boas que não soube manter, eis o resto. O requiem do homem que, antes e depois do escritor, se confessa. Sou mau. Cinco anos chegam para prová-lo até à exaustão. Mas a vida é isto. Eu sou isto. Em nenhum lugar eu sou e fui tanto como neste lugar. Perdoem-me, se puderem, vocês, dezasseis amigos e meio. Prometo tentar crescer… quem sabe nos próximos cinco anos.

3 comentários:

Palmira disse...

Letras, palavras, frases, textos, poemas, prosas, narrações, pensamentos, histórias, imagens, canções, melodias…
1000 … um número redondo… um cubo perfeito!
Mais raramente perfeito só o número em capicua… 1001 (textos desigualmente belos do blogue)… a perfeição em forma de simetria.
Ainda, neste caso, se somarmos os algarismos obtemos o único dos primos que é par… e o primeiro de todos eles!
Sem falarmos no 5 … nos cinco dedos de cada mão, nos cinco sentidos, nos cinco dias de trabalho (para o comum dos mortais), das cinco fases da lua (as ditas quatro e a nossa própria)...

Que a perfeição da tua escrita continue de forma exponencial.
Obrigada pela generosidade de tamanha partilha!

Beijinho =)

Elsa disse...

Hoje apenas posso deixar aqui a minha humilde mas sincera homenagem. Parabéns!


O aconchego de “Dias Desiguais”
invade carinhosamente
o mais profundo íntimo.

Neste cantinho,
as palavras são dedos
que se enlaçam
pelas mãos do poeta.

As palavras movimentam-se,
deslizam, tacteiam.
E com um sorriso cúmplice
fazem estremecer o âmago.

Aqui… grãos de poesia e de prosa
abraçam a linha do horizonte
e perfumam todo um século.

“Dias Desiguais” é galeria de arte
onde a sinfonia de telas sublimes
é tecida pelo coração do poeta.

Clara Amorim disse...

Por mim, estás "perdoado", João!
E quero continuar a ler-te, não nos próximos 5 anos, mas nos próximos 50, 500, 5000 anos!!!