Domingo, 22 de Janeiro de 2012

canto do sabão

jrl (2012)
















a catarse desce
sobre as mãos — frias mãos
desde o osso.
com elas me habito no extremo
filão da antiga idade

ah mãe, minha mãe

brancos dedos entre esquírolas
de sabão e de espuma
o tanque improvisado

não pude então convocar
a poesia. o aroma
inculcando-se no septo
era a poesia

no mesmo lugar, sou eu
agora quem desce ao
cru movimento da água e
se purifica com o sólido
cubo de sais

também os anos assim
nos depuram sem pressa
também assim honestos
também assim vigorosos

6 comentários:

Clara Amorim disse...

João,

Recuando uns anos na memória, será caso para dizer: "Belo, mais belo não há!"

Bom domingo!

joão ricardo lopes disse...

Adoro o cheiro do sabão clarim. Agora chamam-lhe «Marselha», mas eu prefito clarim...

É algo quase metafísico! Um cheiro de pureza e de purificação sem igual!

Sofia disse...

O poema canta mais fundo do que a garganta, mais longe do que os olhos, mais rápido do que o coração. E canta mais duradoiramente do que as pedras...

Lembro-me da minha avó a lavar os lençois no rio e de me levar consigo. Havia mulheres com canastras de roupa e com as barrelas. Que saudades, João.

Lendo os seus poemas tenho a impressão de ser sujeita a choques eletricos, choques de memória, choques de amor por pessoas que já desapareceram.

Umas vezes penso que isso é um dom, outras um talento terrivel, porque a nossa vida anda para trás e sofre-se com isso.

Amo a sua poesia como se ama um homem com todas as forças. E sou direta nesta confissão pois o João me rasga toda de acima abaixo...

joão ricardo lopes disse...

Acho que escreveste um poema muito bonito sobre o meu poema, Sofia! Lisonjeias-me e entristeces-me também (quando é que fica o «tu» entre nós?)...

Elsa disse...

João,

Por mais que procure não encontro palavras que digam o que sinto ao ler e reler este tão límpido poema.

É colossal!

Hoje, na festa do livro na fundação Cupertino de Miranda, tive de morder os lábios para não ser indelicada com um senhor (se é que assim se pode chamar) ao ouvi-lo dizer, para a mulher que o acompanhava, que os poetas eram todos malucos e que não sabiam escrever. A seu lado, a mulher concordava. E eu, com um enorme aperto no peito, percebi que naquele momento tinha de me manter calada. Acredita, Amigo, que até os meus olhos ficaram bridados de lágrimas e se tivesse comigo, naquele instante, um dos teus livros tinha-lo oferecido pois a qualidade da tua poesia iria certamente contrariar o cepticismo e contagiar aquele “pobre” homem.

A poesia é vida e quem não a sente e a despreza só pode ser uma besta...

Parabéns!

joão ricardo lopes disse...

Bom, compreendo a tua raiva. Mas vê o facto pelo lado positivo. Por cada idiota que apanhamos, há uma pessoa inteligente que nos entende. Uns falam a linguagem dos homens, outros preferem zurrar como os burros. É uma questão de estilo! :)