Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

chávena de café & cachimbo

René Magritte, Le Libérateur, 1947






















chávena de café & cachimbo

uma chávena de café e o cachimbo
eram todo o lugar vazio do avô à mesa
depois do jantar

anos depois
uma chávena de café e o cachimbo
são ainda a melhor presença no mundo
dos vivos de quem me ensinou
a partir

quem explica as contradições do amor?
quem senão a própria poesia, que de
paradoxo em paradoxo se aclara como a
sala solitária, com os dois restos de
aromas desfiando na mais viva das
memórias?

***

tasse du café & pipe

une tasse du café et le pipe
c’étaient tout la place vide du grand-père à la table
après le dîner

années ensuite
une tasse du café et le pipe
ce sont encore la meilleure présence dans le monde
des êtres vivants qui m’ont enseigné
à partir

qui explique les contradictions de l’amour?

qui autrement la propre poésie, que de
paradoxe dans paradoxe s’éclaire comme
salle solitaire, avec les deux restes
d’arômes effilant la plus vivante des
mémoires?

(Traduit en Français par Elsa Campos)

4 comentários:

Clara Amorim disse...

O Eugénio de Andrade iria adorar...!

Elsa disse...

Belo!

As recordações fazem mover as roldadas da vida com uma força única...

Um beijinho!

joão ricardo lopes disse...

Obrigado, Clara! O Eugénio não será a chávena e o cachimbo, mas um belo aroma de mar, a entrar-nos pelo quarto!

joão ricardo lopes disse...

As recordações, como disse (e bem) a Emília, fazem parte da minha poesia de modo visceral...

Tenho-me dado conta que ela está coberta de razão!