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| Foto: Tom Pfeiffer |
Hellas
Ouvindo Eternity and a Day de Eleni Karaindrou, em memória de Théo Angelopolous
também eu me alucino nas gregas colunas de Fídias.
pedras sumptuosas da memória, do mármore, das mãos
brancas que maravilhosamente amadurecem como
os figos de Kaváfis
no firmamento em baixo, ao fundo, as candeias elevam
o queixume dos mortos: branco luto das casas serenas
os sicômoros, os bárbaros que vêm
— ide: o demiurgo espera-vos
ide homens tombados no vento, renascidos no pó
maravilhosamente amadurecem as luzes em socalco.
Eleni deflagra sobre os olhos a pira incendiária
a libação no correr dos quilómetros
ah, Grécia, Grécia, país das harpas: país do vento
os bárbaros por fim chegaram, os bárbaros com
seus escopros, suas catapultas, sua ruína de pedras
quebradas, suas derruídas colunas de Fídias
— bárbaros, bárbaros, bárbaros
nas gregas lágrimas, Eleni estende a toada límpida
dos mares, seus montes noturnos, seus deuses
foragidos: ah lágrimas, gregas lágrimas de Eleni
o poeta depõe sua lança, sua armadura, seus couros
e fivelas, suas sandálias impregnadas de amor
— enleia-me nas helenas lágrimas, Eleni
tinge-me no talássico azul, nos brancos dedos brancos
do mármore, Eleni
os bárbaros jamais entrarão na cidade:
noites sobre noites cairão, mas os bárbaros entrando
não saberão entrar na cidade: os bárbaros pertencem
a outra língua e não a Fídias, nem a Kaváfis, nem
a Eleni
ah, Grécia, Grécia, país das harpas e do vento:
que os bárbaros não te conheçam, nem te apaguem as
candeias tristes dos mortos quando a noite cai
quando os deuses regressam
***
Hellas
Écoutent Eternity and a Day de Eleni Karaindrou, en mémoire de Théo Angelopolus
aussi je m’hallucine dans les grecques colonnes de Phidias.
pierres somptueuses de la mémoire, du marbre, des mains
blancs qui merveilleusement mûrissent comme
les figues de Cavafy
dans le firmament en bas, au fond, les chandelles élèvent
la plainte des morts: blanc deuil des maisons calmes
les sycomores, les barbares qui viennent
— allez: le démiurge vous attend
allez hommes renversés dans le vent, renaisse dans le poudre
merveilleusement mûrissent les lumières
Eleni déflagre sur les yeux le bûcher incendiaire
la libation dans le courir des kilomètres
ah, Grèce, Grèce, pays des harpes: pays du vent
les barbares finalement sont arrivés, les barbares avec
ses ciseau, leurs catapultes, sa ruine de pierres
leurs colonnes de Phidias
— barbares, barbares, barbares
dans les grecques larmes, Eleni élargit la chanson limpide
des mers, leurs monts nocturnes, leurs dieux
enfuis : ah larmes, grecques larmes d’Eleni
le poète dépose sa lance, son armure, leurs cuirs
et boucle, leurs sandales imprégnées d’amour
— m’enlace dans les hellènes larmes, Eleni
me teint dans le bleu thalassique, dans les blancs doigts blancs
du marbre, Eleni
les barbares jamais entreront dans la vile :
des nuits sur des nuits tomberont, mas les barbares en entrant
ne sauront pas entrer dans la ville : les barbares appartiennent
à autre langue et nom à Phidias, ni à Cavafy, ni
à Eleni
ah, Grèce, Grèce, pays des harpes et du vent :
que les barbares ne te connaissent pas, ni t’éteignent les
chandelles tristes des morts quand la nuit tombe
quand les dieux retournent
(Traduit en Français par Elsa Campos)

8 notas de rodapé:
Muitos parabéns ao sublime Poeta, à fantástica Tradutora e, já agora, à excelente Compositora, Eleni!!!
Este poema magistral tem uma sonoridade única.
A forma sentida com que ornamentaste as palavras tornou visíveis os sentimentos e sensações mais abstractos.
O melodioso silêncio do poema arrepia intrinsecamente e encanta…
Sublime!
É um post extraodinário, João. O teu poema é lindooooooo. E a foto de Santorini que publicaste é a melhor legenda possível. Estive na Grécia em 2004 e 2007 e reconheço-me em cada das tuas palavras e a referência ao poema de Cavafi é sublime. Percebi a ironia: os novos bárbaros, talvez a Merkel e os da Troika...
À ESPERA DOS BÁRBAROS
O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.
Obrigado! Às vezes sou um ingrato. Nem sempre respondo! OBRIGADO pelo vosso cuidado!
Pois... Quem escreve tanto esquece-se de agradecer! xD
Sorry...
João,
O poema seguinte é sempre a melhor forma de agradecimento...!
Bem-hajas!
Oh, João!
Que melhor agradecimento podemos querer do que a genuína partilha dos teus poemas e a cumplicidade com que acolhes cada comentário no teu blogue?
Também eu, privilegiada leitora, tenho de agradecer os momentos divinais que a leitura da tua poesia proporciona.
Hoje, com a sinceridade que conheces e completamente grata, peço-te para continuares a “semear estrelas”, pois cada poema teu é uma nova luz...
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